sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma horta novamente

Passado algum tempo, depois de uma série de perdas de inocências (algumas símples, outras sérias), posso dizer que tenho uma horta. Posso dizer que a ideia começou há um bom tempo atrás, talvez desde o dia em que a abandonei.

O abandono se deu por uma série de questões, desde a constatação de que não era exatamente uma coisa muito rentável, até a de que precisa investir o meu tempo em outras coisas, como estudar, entender a relação com a morte, explicá-la sem o expediente divino; e outras cositas.

Depois de um tempo, cerca de 15 anos, posso dizer que tenho uma horta novamente.

Antes de mais nada era preciso fazer um isolamento para os cachorros, que não são poucos, quatro, por ordem de antiguidade: Frodo, Mel, Duda e Lola (a coisa mais lindinha desse mundo); cada um com sua história e razão de existir, isso para ao menos o Eu que escreve - lembrando que esse eu é uma indefinição, é o príncipal dêitico que posso imaginar, eu não estou certo do que me constitui....isso varia de transas a frustrações.

Depois de feito o isolamento para os cachorros -  o que me  tomou uns bons dias, ou umas boas tardes - normalmente o fazia quando não dava pra pedalar, por alguma dor exacerbada, lesão ou coisa do tipo; ou, pra fugir do barulho de limpeza de casa, aos sábados, EU NÃO SUPURTO O BARULHO DO ASPIRADOR DE PÓ - passei a virar a terra, melhor dizendo, começei a limpar o lugar: o fundo da minha casa, que antes disso, tem uma casa, alugada, agora para um pessoal do 'lado B', os quais foram os melhores inquilinos que já tivemos; isso tudo no Ecoville (mossunguê para quem faz outro e conheçe outros aspetos do bairro).  Fiz seis belos canteiros.  MORRA DE INVEJA, SIM VOCÊ.

Dois deles foram usados para semeaduras. Na ordem, semeei (duvido que voce iria lembrar desse duplo 'ee' no pretérito perfeito): rúcula, agrião da terra, alface branca crespa, lisa, roxa, crespa branca, tominho ( o português), salsinha, alface branca lisa, e couve. Julguei que era um bom começo.

Depois disso, minha mãe achou um canto e semeou (agora sem duplo 'ee') feijão (tem ditongação, não é fejão, se for, come com farofa e vai dormir) e pepino de conserva.

Faltava um toque final, plantar as minhas queridas videiras. Faz 15 quinze dias (e para a gramática tracional, ou bico fino, fazer, no sentido de tempo decorrido é verbo impessoal, de forma que não é fazem; mas como aprendi no curso de Oficial de Justiça, FDS a gramatica tracional); faz quinze dias, pois vc já deve ter esquecido do que estava falando, que estive na Boutin e Mercado Municipal (lembrança do filme "Estomago) e comprei as mudas de videira, na ordem de que foram plantadas: merlot, moscatel, bordo e niágara. Estou impressionado de que elas estão mais fortes.

Hoje, como criança, e no feriado de, fiz o toque final, limpei, semeei outros temperos, limpei alguns cantos, e semeei algumas flores - vai que nasça (duvido que você iria lembrar que era com cedilha, que não tem cedilha).

As rúculas nasceram como praga,  impressionante, se bobiar tem até na minha cama, vieram grudadas, acho que vou comê-las; como é bom uma rúcula.

Depois de tudo, hoje, tomei um conhaque, apesar do Red Label que estava do lado, e vim escrever. Isso só para justificar os possíveis erros. Eu não gosto de corrigir o que escrevo. Casa de ferreiro, espeto de pau.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O sino badalava, os ateus terminavam o lanche. O corvo cuidava de tudo.

Nunca se sabe o que vai acontecer exatamente quando se sai para fazer um pedal. Pedalar é o inesperado. Pode dar tudo certo; ou, tudo errado. Mas sair para, já é um indício de que as coisas estão certas, ou ficarão. O mundo consertado. A partir dalí, da saída,  acontece uma outra contagem de tempo. Em minutos, em pernadas; em subidas, em retas, em respiração. Em fuga de cães, do mundo sujo, hostil, podre.

O dia ainda não estava totalmente iluminado pelo Sol quando os caras encontraram-se na Praça do Japão, uma ideia de percurso, a esperança de que outros caras viessem. Mas nada, foram apenas os dois ateístas. Um deles não tivera um sono ideal, o físico não estava ideal; o outro, aparentemente, tudo bem. Não assistira a luta dos troglodistas do UFC, um certo nojinho desse ambiente, podre.

Com pouco de pedal, menos de uma hora, o silêncio da manhã de domingo na cidade foi substituído pelo som da rodovia; com seus cheiros, imagens e nervosismos que acalmam, isola os putos e pobres diabos. Levam comida e tecnologia para as putas e pobres diabas, cidades. Nosso recorte de conforto e neuroses.

Sobe, desce. Troca marcha, sobe marcha. Cachorro morto, ossos expostos. Deve ter sido à noite, amarelinho. Corvos, 5 ou 6, bicavam o coro, cortavam a carne. Quando os ciclistas-ateus passaram, pararam e olharam desconfiados, reciprocamente. Num outro dia, à noite, um deles recolhera um cãozinho com o corpo ainda quente, para o pneu da carreta não triturar; esquecera que os corvos também o fazem. Eles queriam o café da manhã. Nada cruel. Nada, aceitável. Falta de razão e rodovia não combinam. O cão haveria de morrer, um dia. A rodovia e sua estupidez, a do dono, anteciparam.

Cuidem-se com os trevos. Os corvos estão alí. Hospital. Naquele, dizem, cuidam de vazamento de líquido vermelho dentro do cérebro. AVC. Ambulância, carros chegando, parados; cigarros, cara de sono, choro, lamentação. Dor. A morte vem de qualquer jeito. Ela é a garantia.

A pedalada segue, a vida tem que seguir, vamos ver fábrica de caminão genérico. Você entende? coisa da china. Cinco anos de uso, não se sabe o que vai dar, o que vai ser. Menos caro, não tão barato. Uma opção. O tempo dirá sobre a qualidade, custo-benefício.

O sanduíche já estava na mochila. Faltava algo de beber. Mercadinho de bairro. Coca-Cola. E os dois quilos daquele gasoso já acusaram, na subida, qualquer respiração mais apressada. Estrada de chão. Subida. Cachorrinho em pose de ataque. "Não guriiiii, não faça isso". Ele veio. Chute, de sapatilha, na boca do bicho. Deu dó.

Na praça, em frente da igreja, quantro bancos. Um jardim. A cidade acordando. Pessoas dizendo qualquer coisa, uma carreta estacionada. Cavalos passando. De todos esses elementos, a igreja não mais. Os outros, paixão. Mas era preciso comer. Em pouco tempo, ceiávamos. O primeiro banco já tinha retame de Coca-Cola.  Tocaram de banco. O sanduíche estava no ponto, as cueca-viradas completaram a refeição.

Um sujeito com aspectos de trissomia do cromossomo 21 disse alguma coisa, cuidava do caminhão. Disse alguma coisa para os ciclistas, parecia praga, parecia reza. Algumas fotos. Os dois sujeitos representavam a alteração do lugar. Não era harmônico. O conserto gera desconserto.
 
A praça começou a receber movimento. Antes, uma sacolinha de plástico despreendera-se, ganhara vida pelo vento, cruzou a praça, seguiu destinho, na rua. Puta frio danado, paranoia. Acho que estou apaixonado por alguém proibida (sic). Um anjo negro. Pássaro novo. Toque de mão. Nervosismo. Pirulito.

10:00 horas. O sino badalou, era hora de acabar a ceia. Era hora de voltar. Ameaçava chover. deveriamos ter filmado.

No topo da igreja, havia um corvo cuidando dos dois ateus. Todo momento.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Rasgue: é muita coisa pra pensar!

Rasgue os seus melhores sonhos. Rasgue. Rasgue todas as Leis. Todos os costumes. Todos os projetos. Tudo é insuficiênte. Rasgue as suas flores. O seu corpo. Nós não vamos conseguir. Não é possível. Não adianta. Não adianta. Não adianta. Nos melhores shopings. Tudo é vulgar. É um escândalo. Vamos espiar. Não, não quero ver nada, não há nada de novo, é aquela mesma gosma suja e ocre, as mesmas paroxítonas. Chega de câmaras. Pra que mais uma copa do mundo? Por que a copa do mundo? Temos tentas outras coisas pra pensar! Seria muito melhor ficarmos concentrados. A copa do mundo será uma aporrinhação sem fim - e já começou. Rasguemos os projetinhos de copa, arquivemos no inferno. Temos tantas coisas para aprender, tantas datas para memorizar, tantas mortes para entender e esquecer, e reviver. Tantas honras para dar. Por isso, rasgue, arranque seus cabêlos, bata na sua cara, na sua boca maldita e mal-agradecida. Arrebente suas rótulas nas rochas, raspe sua cara areia, até sangrar. O sangue é melhor. É melhor duvidar. Pense. O escuro é tudo, você e a escuridão, com o som dos grilos, e dos motores de caminhão, e de avião, e de trem. Tudo misturado, num navio, num barco. Num corpo. Junto com as batidas do coração; isso, coloque tudo num balão, e rasgue; não deixe subir. O céu não merece nossa consideração. Fique no banco, sozinho, é melhor. A espera do ônibus que não virá, ele não existe, não pode ser inventado. Fique olhando o balão queimar, o pássaro morto, a pulga dos cães, os dentes caídos, conte, cuidadosamente cada dente, eles desaparecerão, de qualquer jeito, querendo ou não, antes ou depois de você. O fim da noite e o fim do dia. Busque a lua, para um pequeno e medíocre momento de prazer. Encharque o corpo com vinho. Para ele se esfregar melhor. Então me rasque, com essas unhas, com esses dedos, com essa boca, com esse corpo, com esses gritos de horror, para expressar meu desespero, porque não dará certo, é muita coisa pra pensar!